Cores impressionistas
· Estilos e modelos: estudar e depois fazer pastiche · Nível 5 · 20 min
Por volta de 1890, em Paris, alguns músicos se cansaram das grandes máquinas românticas que sempre precisam “ir a algum lugar”. Erik Satie escreveu suas Gymnopédies (1888), Claude Debussy seus Préludes e Estampes, Maurice Ravel seus Jeux d'eau. A ideia deles: uma harmonia não precisa se resolver, ela pode simplesmente existir como uma cor, como uma mancha de luz numa tela de Monet. Para um compositor iniciante, é um mundo maravilhoso: as regras de resolução se afrouxam e o ouvido passa a ser o único juiz.
As impressões digitais do estilo
- A escala de tons inteiros: seis notas separadas por tons inteiros (Dó–Ré–Mi–Fá♯–Sol♯–Lá♯). Sem semitons, logo sem sensível, logo sem tônica: uma música que flutua (Debussy, “Voiles”).
- Acordes paralelos (“planing”): a mesma forma de acorde deslizando em bloco, com quintas paralelas e tudo. O que o contraponto proibia vira cor (Debussy, “La Cathédrale engloutie”).
- Modos: dórico, lídio (com sua quarta aumentada luminosa), mixolídio, eólio… em vez do par maior/menor.
- A escala pentatônica: as cinco notas das teclas pretas, lembrança do gamelão javanês ouvido na Exposição Universal de 1889 (Debussy, “Pagodes”).
- Acordes enriquecidos: sétimas maiores, nonas, sextas acrescentadas, deixadas sem resolução.
- Harmonia estática: um baixo sustentado ou dois acordes que oscilam, o pedal misturando as ressonâncias, títulos evocativos.
A escala de tons inteiros e os acordes aumentados
M:4/4
L:1/8
Q:1/4=60
K:C
%%staves {RH LH}
V:RH clef=treble
V:LH clef=bass
[V:RH] C D E ^F ^G ^A c2 | ^A ^G ^F E D C C2 |]
[V:LH] [C,E,^G,]8 | [D,^F,^A,]8 |]
Todas as notas, tanto da melodia quanto dos acordes, vêm da mesma escala de tons inteiros. Os acordes da mão esquerda são aumentados (terças maiores sobrepostas): eles não têm fundamental clara nem direção. Ouça como a linha ascendente não “quer” ir a lugar nenhum: é uma névoa, uma bruma sobre a água. Use em pequenas doses, senão o ouvido logo se cansa.
Acordes paralelos
M:4/4
L:1/8
Q:1/4=56
K:C
%%staves {RH LH}
V:RH clef=treble
V:LH clef=bass
[V:RH] [ceg]2 [dfa]2 [egb]2 [dfa]2 | [ceg]8 |]
[V:LH] [C,G,]2 [D,A,]2 [E,B,]2 [D,A,]2 | [C,G,]8 |]
A mão direita desliza uma tríade pelos graus da escala; a mão esquerda acompanha em quintas vazias. Um professor de harmonia do século XIX teria riscado tudo isso de vermelho! Aqui os acordes não são mais funções (tônica, dominante…), mas uma linha melódica engrossada, como um coro de monges ou um sino que ressoa. Toque pianissimo, com pedal: já é uma pequena catedral.
O modo lídio e a oscilação
M:4/4
L:1/8
Q:1/4=66
K:C
%%staves {RH LH}
V:RH clef=treble
V:LH clef=bass
[V:RH] "Cmaj7"g4 e2 c2 | "D/C"^f4 a2 d2 | "Cmaj7"e4 g2 b2 | "D/C"a2 ^f2 "C"g4 |]
[V:LH] C,2 [E,G,B,]2 C,2 [E,G,B,]2 | C,2 [D,^F,A,]2 C,2 [D,^F,A,]2 | C,2 [E,G,B,]2 C,2 [E,G,B,]2 | C,2 [D,^F,A,]2 [C,G,E]4 |]
Dó lídio é Dó maior com um Fá♯. O baixo fica em Dó (um pedal) enquanto a harmonia balança entre Dó maior com sétima maior e Ré maior: esse Ré sobre Dó faz aparecer o Fá♯, a nota mágica do lídio, que soa sem peso, luminosa, um pouco irreal. Muitas trilhas de cinema usam esse modo para sugerir encantamento.
O modelo: a oscilação à maneira de Satie
A Gymnopédie nº 1 de Satie se apoia em dois acordes de sétima maior que se balançam sem fim, sob uma melodia lenta e despojada. Aqui está um esboço original construído sobre o mesmo princípio:
M:3/4
L:1/4
Q:1/4=72
K:D
%%staves {RH LH}
V:RH clef=treble
V:LH clef=bass
[V:RH] "Gmaj7"z a f | "Dmaj7"e3 | "Gmaj7"z d B | "Dmaj7"c3 |]
[V:LH] G,, [B,DF]2 | D,, [A,CF]2 | G,, [B,DF]2 | D,, [A,CF]2 |]
Um baixo grave no primeiro tempo, um acorde no registro médio nos tempos 2–3: uma valsa desacelerada até a imobilidade. A melodia pousa nas notas mais coloridas: Mi (a nona de Ré) e Dó♯ (a sétima maior). Nada se resolve, e é justamente por isso que é tão bonito.
- Misturar tudo: tons inteiros, pentatônica, lídio e cromatismo nos mesmos oito compassos. Uma cor por seção basta.
- Voltar aos reflexos tonais: uma cadência perfeita Sol7–Dó no meio quebra o encanto na hora.
- Tocar forte ou rápido demais: essas harmonias precisam de tempo para ressoar. Deixe o pedal trabalhar.
- Nenhuma forma: flutuar não quer dizer vagar. Mantenha um plano simples (A–B–A) e um motivo reconhecível.
A receita do pastiche
- Escolha uma imagem e um título provisório.
- Escolha uma cor principal para A (por exemplo, lídio sobre um pedal de Dó) e uma cor contrastante para B (por exemplo, tons inteiros ou acordes paralelos).
- Monte um fundo estático: um baixo sustentado ou dois acordes que oscilam.
- Escreva uma melodia lenta que se demore nas notas “coloridas” (nona, sétima maior, quarta aumentada).
- Termine sem cadência clássica: um acorde de sétima maior ou de nona sustentado, que se apaga no pedal.
Sua oficina
- Explore os sons com a base impressionista: improvise por cinco minutos usando só as teclas pretas e depois só a escala de tons inteiros.
- No piano roll, crie um fundo de 8 compassos: um pedal de Dó no baixo, oscilando entre Dó maior com sétima maior e Ré sobre Dó.
- Acrescente uma melodia lenta em Dó lídio (com Fá♯), dando preferência a notas longas.
- Escreva uma seção B de 8 compassos em acordes paralelos deslizantes e depois traga A de volta.
- Transcreva sua peça no editor ABC e dê a ela um título evocativo.
- Autoavaliação: toque sua peça para alguém sem dizer o título e pergunte o que a pessoa imagina. Se a resposta for próxima da sua imagem, você pintou com sons.